Oncoclínicas registra prejuízo de R$ 3,67 bi e pacientes têm sessões adiadas por falta de medicamento
A Oncoclínicas registrou prejuízo de R$ 3,67 bilhões em 2025 e entrou em zona crítica de liquidez: deve mais no curto prazo do que tem a receber. Os próprios diretores admitiram "incerteza significativa" sobre a continuidade das operações. A consultoria Deloitte alertou para o risco de credores exigirem antecipação das dívidas.
O impacto já é visível no tratamento de pacientes — sessões de quimioterapia e imunoterapia estão sendo adiadas por falta de medicamentos nas unidades da rede. A empresa negocia aportes de R$ 500 milhões com o Porto Seguro e com o fundo americano Mak Capital para tentar se estabilizar. O CEO renunciou nesta semana. As negociações com a Porto têm prazo até o dia 13 de abril.
A Oncoclínicas fechou 2025 com prejuízo de R$ 3,67 bilhões e capital circulante negativo em R$ 2,31 bilhões — o que significa que a empresa deve mais no curto prazo do que tem a receber. Os diretores admitiram, em relatório, que a companhia "está em um cenário de incertezas significativas da continuidade operacional".
Entre as causas, a empresa cita R$ 430,8 milhões perdidos com o Banco Master — liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central — e R$ 861 milhões em inadimplência da Unimed Ferj, além do impacto do aumento dos juros sobre sua dívida. A consultoria Deloitte alertou que a situação pode levar credores a exigir antecipação dos pagamentos.
A crise já chegou aos pacientes: sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia estão sendo adiadas em unidades da rede, com justificativa de falta de medicamentos. Relatos de pacientes em tratamento oncológico descrevem reagendamentos repetidos e angústia diante da interrupção do tratamento.
Para tentar se reerguer, a empresa negocia um aporte de R$ 500 milhões com o grupo Porto Seguro, com prazo de decisão até o dia 13. O modelo prevê a criação de uma nova empresa para abrigar as clínicas de oncologia, com a Porto detendo ao menos 30% do capital. O fundo americano Mak Capital também ofereceu R$ 500 milhões, com condições que incluem mudanças no conselho. O CEO Marcelo Gasparino da Silva renunciou ao cargo nesta semana.
A Oncoclínicas encerrou 2025 com prejuízo de R$ 3,67 bilhões — uma piora de 11% em relação às perdas de R$ 717 milhões registradas no ano anterior. Os números, divulgados na noite desta quinta-feira, mostram uma empresa com o caixa comprometido: o capital circulante está negativo em R$ 2,31 bilhões, o que significa que a rede deve mais no curto prazo do que tem a receber.
A maior fatia do passivo vem de empréstimos e financiamentos, que somam R$ 3,2 bilhões. Débitos com fornecedores chegam a R$ 1,10 bilhão. Os efeitos dessa crise já chegaram aos pacientes: relatos se multiplicam nas redes sociais sobre adiamentos em sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, com a justificativa de "indisponibilidade temporária de estoque de alguns medicamentos".
A consultoria Deloitte, em parecer sobre os resultados, alertou que a situação "pode ensejar o vencimento antecipado e a exigibilidade das obrigações pelos credores, e coloca pressão relevante de liquidez na companhia". Em relatório interno, os próprios diretores admitiram que a Oncoclínicas "está em um cenário de incertezas significativas da continuidade operacional".
Entre os fatores que explicam a deterioração, os diretores citaram R$ 430,8 milhões perdidos após investimentos no Banco Master — liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central — e a inadimplência da Unimed Ferj, que somou R$ 861 milhões. O aumento da taxa de juros e o crescimento da inadimplência em 2025 agravaram o quadro.
Para tentar estancar a crise, a empresa avalia diferentes frentes. Uma delas é um aporte de R$ 500 milhões do grupo Porto Seguro, com um termo não vinculante de exclusividade assinado em março e previsão de negociação até o dia 13. O modelo prevê a criação de uma nova empresa — chamada internamente de NewCo — para onde seriam migradas as clínicas de oncologia. A Porto teria ao menos 30% do capital da nova empresa. O grupo Fleury também entrou nas conversas em aditivo posterior ao acordo inicial.
Outra possibilidade é um aporte de R$ 500 milhões do fundo americano Mak Capital, que detém 6,3% das ações da companhia. A proposta, porém, está condicionada à convocação de uma assembleia extraordinária para tratar, entre outros temas, da destituição dos membros do conselho de administração — sessão prevista para o dia 30 de abril. O fundo também ofereceu um empréstimo de R$ 100 a R$ 150 milhões em caráter imediato.
Na última quarta-feira, a Oncoclínicas confirmou que avalia recorrer à Justiça para se proteger temporariamente da cobrança de credores — uma medida cautelar que seria desdobramento das negociações em curso. Nesta semana, o CEO Marcelo Gasparino da Silva renunciou à presidência e à cadeira no conselho de administração da empresa.
No chão das clínicas, pacientes oncológicos relatam sessões adiadas repetidas vezes. Sueli de Lima Gazoni, de 57 anos, em tratamento de câncer no intestino há dois anos, teve uma sessão de imunoterapia reagendada duas vezes seguidas. Sua filha Juliana Rocha resume o impacto: "É câncer, e não gripe ou dor de cabeça. Me sinto numa mistura de impotência, raiva e muito medo." A professora Mônica Ferreira, seis anos em tratamento oncológico, também viu sessões de imunoterapia adiadas, com janelas que chegam a 21 dias entre aplicações.
A Oncoclínicas afirmou em nota que "implementa medidas para normalização progressiva do cenário na próxima semana" e que as equipes clínicas seguem com "acompanhamento individualizado dos casos".