Endividamento recorde atinge 80% das famílias e bets aprofundam crise financeira
80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março — recorde absoluto desde que a Confederação Nacional do Comércio (CNC) começou a medir o indicador, em 2010. O dado revela uma crise que combina juros altos, crédito fácil e o avanço das plataformas de apostas virtuais, e que preocupa o governo em ano eleitoral.
A pesquisa da CNC mostra que 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso e 12,3% declararam não ter condições de pagar o que devem. O comprometimento da renda com dívidas chegou a quase um terço do orçamento familiar. Outra pesquisa, da Serasa, aponta que 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro — quase metade da população adulta —, com dívida média de R$ 6.598 por pessoa.
Os principais vilões são os cartões de crédito, presentes em 84,9% das dívidas das famílias. No crédito rotativo — acionado quando a fatura não é paga integralmente —, os bancos cobram juros de 435,9% ao ano, segundo o Banco Central. Desde 2024, uma norma limita o crescimento da dívida no cartão ao dobro do valor original, mas o impacto ainda é limitado: pesquisa Datafolha indica que 27% dos brasileiros usam o rotativo com alguma frequência.
Três fatores explicam o problema estruturalmente. O primeiro é a expansão do crédito após a pandemia, com a bancarização digital levando mais pessoas a terem acesso a financiamentos — movimento positivo para a inclusão, mas que, sem educação financeira, virou porta de entrada para o endividamento. O segundo é a Selic elevada, atualmente em 14,75% ao ano, que encarece toda a cadeia de crédito. O terceiro, mais recente, é o crescimento das apostas virtuais: 29% dos brasileiros dizem apostar em bets, segundo pesquisa Quaest de abril.
Os relatos ilustram o problema. Uma jovem de 21 anos da Bahia afirma que teve o nome negativado em cinco bancos por causa de empréstimos contraídos para apostar. Um empresário mineiro de 39 anos estima ter perdido mais de R$ 100 mil em apostas e acumula cerca de R$ 30 mil em dívidas. Uma psicóloga de Florianópolis viu uma dívida original de R$ 10 mil dobrar em seis meses por causa dos juros do cartão.
O governo Lula planeja lançar uma segunda versão do Desenrola, programa de renegociação de dívidas, e estuda liberar até R$ 7 bilhões do FGTS para quitação de pendências. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou que a nova versão deve contemplar pessoas físicas e empresas.
Mas especialistas são céticos quanto à eficácia. Estudo da MB Associados sobre o primeiro Desenrola — encerrado em maio de 2024 — mostra que o programa reduziu a inadimplência entre 2 e 3,5 pontos percentuais nas linhas sem garantia, mas o efeito durou apenas 18 meses. "Funcionou como uma limpeza pontual de carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento", avalia Sergio Vale, economista-chefe da consultoria.
Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, uma solução duradoura exigiria educação financeira, maior transparência nos custos do crédito, mais competição bancária e, sobretudo, equilíbrio fiscal. "O governo precisa dar o exemplo e equilibrar o orçamento dele, porque é o desequilíbrio das contas públicas que joga a Selic a 15%", diz.
A Febraban, entidade que representa os bancos, discorda da tese de que as instituições financeiras concedem crédito de forma irresponsável. Afirma que a concessão segue "critérios rigorosos de análise" e que o custo elevado do rotativo reflete o risco maior da operação.
O endividamento tem consequências políticas. Com eleições em outubro, o governo enfrenta o desafio de que o crescimento do PIB e o desemprego baixo não se traduzem em aprovação popular quando boa parte da renda vai para pagar dívidas. Dos três endividados ouvidos pela BBC News Brasil, nenhum conhecia as medidas em estudo pelo governo — o que revela também um problema de comunicação.